Queijo Minas Artesanal: patrimônio ameaçado


Na coluna da semana passada, mencionei o reconhecimento da Unesco ao Queijo Minas Artesanal e seu modo de produção como patrimônio imaterial da humanidade. Este reconhecimento reforça a centralidade do queijo na cultura local, especialmente em regiões como a de Campos Altos, ponto geoestratégico situado na zona de confluência dos queijos Araxá, Canastra e Cerrado.

Contudo, apesar da conquista, o Queijo Minas Artesanal está ameaçado por diversos fatores. Como alguém que cresceu bem próximo do meio rural entre Campos Altos e Araxá, tenho tido o privilégio de acompanhar de perto os desafios que os queijeiros enfrentam e, infelizmente, sou testemunha ocular de um processo de destruição silenciosa desse patrimônio.

A substituição da pecuária leiteira pela pecuária de corte sempre foi uma causa desse declínio. A produção leiteira exige um compromisso diário com a ordenha, que não permite pausas nem férias, o que implica em dificuldade para a gestão da vida pessoal dos produtores. Os custos de produção são consideravelmente mais altos em relação à pecuária de corte, o que torna o setor leiteiro mais desafiador economicamente. Além disso, os preços pagos pelo litro são frequentemente incompatíveis com o esforço exigido para a sua produção, resultando em uma crescente migração para a pecuária de corte, onde a lida é menos estressante.

Em paralelo, a substituição da pecuária leiteira pela agricultura tem se intensificado em nossa região, especialmente com a chegada de arrendatários de outras partes do Brasil. Boas áreas destinadas à produção de leite – e consequentemente de queijo artesanal – foram convertidas em terrenos agrícolas, com o cultivo de soja, feijão, milho, sorgo e até trigo. Essa mudança impacta diretamente a produção do Queijo Minas Artesanal, pois ele depende da matéria-prima fresca (leite cru) para ser produzido.

Continua após a publicidade

Outro fator preocupante é a existência de uma legislação que onera sobremaneira os pequenos queijeiros, responsáveis pela produção artesanal. O modo de fazer o Queijo Minas Artesanal, uma arte que envolve saberes e práticas transmitidos de geração em geração, não é compatível com a produção em larga escala, característica das grandes indústrias.

No entanto, a regulamentação excessiva dificulta ainda mais a vida dos produtores artesanais, que são os únicos com condições de manter nosso patrimônio. Pode até existir, mas nunca ouvi falar de intoxicações alimentares causadas pelo consumo de queijo artesanal. Simultaneamente, encontramos no Brasil, sem grandes dificuldades, queijos importados produzidos a partir de leite cru, o que parece um contrassenso.

Lembro-me do documentário “O Mineiro e o Queijo” (2009), dirigido por Helvécio Ratton, que já abordava, de forma sensível e crítica, a situação dos queijeiros artesanais e as dificuldades enfrentadas por eles para preservar a produção do Queijo Minas Artesanal. Mais recentemente, lamentei o desaparecimento de queijos tradicionais da nossa região. Por exemplo, o queijo do Ronaldo (Queijo Araxá, Campos Altos) e o queijo da Marisa (Queijo Canastra, São Roque de Minas), ambos reconhecidos pela qualidade e sabor únicos, desapareceram devido, em grande parte, pelos fatores mencionados acima. Isso é um reflexo claro da crise que ameaça este patrimônio cultural brasileiro e mundial.

Continua após a publicidade

É fundamental, portanto, que o poder público de Campos Altos e de Minas Gerais, assim como a bancada mineira no Congresso Nacional, façam mais para proteger e fortalecer o modo de fazer o Queijo Minas Artesanal.

Participe do nosso grupo de notícias no WhatsApp e receba em primeira mão tudo o que acontece em Campos Altos e na região. Clique aqui!
Participe do grupo do Portal No Foco no Whatsapp