Tarifaço sobre o café brasileiro: o real embate é nos Estados Unidos; leia a coluna do tabelião André de Paiva Toledo

Passadas três semanas de tarifaço, o cenário diplomático é de impasse.
- Foto: Reprodução


Este é o terceiro texto consecutivo em que me detenho no tarifaço imposto pelos Estados Unidos às importações de café brasileiro. Volto ao tema porque se trata do acontecimento econômico mais impactante para Campos Altos desde o pior momento da pandemia de COVID-19 em 2020.

O café tem um peso que ultrapassa os elementos diretamente ligados ao grão. Produtores, armazenadores, beneficiadores e transportadores sentem de imediato o tranco das tarifas. Mas o efeito dominó logo alcança trabalhadores, prestadores de serviços, comerciantes, profissionais liberais e o poder público. Quando o dinheiro do café entra e gira, paga a oficina e a mercearia, o almoço do restaurante e a consulta no consultório, a mensalidade escolar e a reforma da casa, os impostos e as taxas que financiam os serviços públicos.

Passadas três semanas de tarifaço, o cenário diplomático é de impasse. O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio, na Suíça, mas a desconsideração norte-americana indica que a solução, no plano internacional, não está no horizonte próximo. Não faltam argumentos jurídicos nem diplomacia brasileira; falta, por realismo, perspectiva de desfecho célere.

Por isso, é hora também de apostar em outra estratégia. Deve-se fazer o embate dentro dos Estados Unidos. Ali, a representação de interesses por advogados e lobistas é atividade legal e institucionalizada. O setor cafeeiro brasileiro deveria estar presente, de forma coordenada, nas instâncias administrativas, nas comissões legislativas, nos gabinetes que desenham política comercial dos Estados Unidos e, quando cabível, nos tribunais.

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O precedente do setor de suco de laranja é eloquente. Com um contencioso qualificado e advocacia estratégica, foi possível reverter as mesmas medidas abusivas. O café pode seguir trilha semelhante, com petições bem fundamentadas, estudos de impacto, mobilização de consumidores e presença constante nos centros decisórios norte-americanos.

É um cabo-de-guerra que exige sangue-frio para deixar a corda arrebentar do lado de lá. O fator temporal joga a nosso favor por uma razão objetiva: os Estados Unidos dependem de cerca de 30% do café brasileiro. À medida que o tempo passa, a escassez relativa chega ao varejo norte-americano, o consumidor sente o aumento de preços e a queda de qualidade ou disponibilidade, e cresce a pressão interna sobre o governo. No limite, isso forçará a revisão das tarifas do café, como ocorreu igualmente no setor de suco de laranja.

Para que a estratégia funcione, contudo, é crucial a coordenação. O setor cafeeiro brasileiro não pode ceder a atalhos, isto é, descontos artificiais, contratos emergenciais a preços rebaixados ou expedientes que impeçam o repasse do custo ao consumidor norte-americano. Se amortizarmos, por conta própria, a pressão econômica que deveria incidir sobre quem nos taxou, esvaziamos o efeito político interno do tarifaço nos Estados Unidos.

Para nossa fortuna, os últimos anos foram generosos com o setor cafeeiro, que se capitalizou e ganhou fôlego capaz de sustentar o plano até que a corda ceda do outro lado. Isso exige disciplina coletiva, comunicação uníssona das entidades representativas, alinhamento entre cooperativas, exportadores e indústria de torrefação, e um calendário tático claro. Além disso, deve-se considerar uma atuação jurídica e política nos Estados Unidos, sem falar da manutenção da diversificação de mercados consumidores – inclusive internamente –, proteção financeira das cadeias locais e transparência com as pessoas que dependem do giro econômico do café.

Se entendermos que o real embate deve se dar nos Estados Unidos e jogarmos o jogo onde ele acontece de fato, aumentamos significativamente as chances de sucesso.

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