Tarifaço americano: café campos-altense e pix brasileiro; leia a coluna do tabelião André de Paiva Toledo
A lógica por trás dessa política é relativamente simples: se os produtos vindos do exterior se tornam mais caros, os empresários americanos teriam incentivo para produzi-los internamente.
- Por: André de Paiva Toledo
- 30/07/2025 15:40
Desde que Donald Trump reassumiu a Presidência dos Estados Unidos em março deste ano, seu governo tem promovido uma política agressiva de protecionismo comercial, voltando-se contra as regras de livre comércio que historicamente impulsionaram a economia norte-americana. Em nome de uma retomada da “grandeza americana”, Trump vem erguendo barreiras tarifárias contra produtos importados, principalmente aqueles oriundos de países que ele considera concorrentes estratégicos, como China, Índia, Brasil e os países da União Europeia.
A lógica por trás dessa política é relativamente simples: se os produtos vindos do exterior se tornam mais caros, os empresários americanos teriam incentivo para produzi-los internamente, mantendo dentro dos Estados Unidos a riqueza que, de outra forma, seria enviada para o exterior. No entanto, esse raciocínio esbarra em limites práticos e econômicos. Tomemos como exemplo o principal produto de exportação de Campos Altos: o café. Será que os Estados Unidos têm capacidade de produzir café em escala suficiente para atender à sua demanda interna? A resposta é clara: não têm. O café é uma cultura dependente de condições climáticas específicas que não estão presentes em território americano de forma satisfatória.
Isso significa que, mesmo com tarifas mais altas, o café de Campos Altos continuará entrando nos Estados Unidos, mas agora como um produto de luxo, consumido por quem pode pagar mais. O cidadão americano médio, por sua vez, terá que se adaptar a um novo padrão de consumo, com menos acesso ao que antes era comum e acessível. Isso deve acontecer em breve, quando o mercado interno reajustar os preços em razão do tarifaço de Trump. Nesse cenário, é possível que as exportações do café de Campos Altos passem a ser redirecionadas para outros mercados, mais receptivos e com barreiras menos hostis. Países como China, Índia, os próprios membros da União Europeia e os nossos vizinhos da América Latina surgem como parceiros estratégicos alternativos, prontos para receber o nosso café de qualidade excepcional.
O que parecia, à primeira vista, um prejuízo, pode se tornar uma oportunidade de diversificação de mercados, gerando novas alianças e fortalecendo as relações comerciais do Brasil com outras potências emergentes. Mas o movimento protecionista dos Estados Unidos vai além das tarifas. Ele reflete um reconhecimento silencioso de que aquele país está perdendo competitividade em diversas áreas frente ao avanço de outras nações. No caso do Brasil, por exemplo, a criação do Pix – sistema de pagamento instantâneo que revolucionou a forma como o dinheiro circula no país – é um exemplo de inovação que ameaça estruturas tradicionais do sistema financeiro global.
Se o Pix for adotado internacionalmente, exigirá uma reorganização profunda do setor bancário mundial, algo que não interessa a determinados grupos econômicos que influenciam a política governamental dos Estados Unidos. Por tudo isso, é hora de valorizarmos o que temos de melhor: o café de Campos Altos, símbolo da nossa excelência agrícola, e o Pix brasileiro, exemplo de inovação tecnológica. Ambos mostram que o Brasil pode — e deve — ocupar um lugar de protagonismo na nova ordem econômica global.
