Onde as águas se separam: Campos Altos entre o São Francisco e o Prata; leia a coluna do tabelião André de Paiva Toledo

- Foto: Internet | Reprodução

Nossa Campos Altos, localizada no Alto Paranaíba, possui uma característica hidrográfica singular e pouco conhecida do público. Ela está situada exatamente sobre a linha divisória de águas entre duas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil — a do Rio Grande, que integra a bacia do Rio da Prata e deságua no Oceano Atlântico na fronteira entre Argentina e Uruguai, e a do Rio São Francisco, que também percorre um extenso caminho até desembocar no Atlântico, mas na divisa entre os estados de Sergipe e Alagoas.

Essa posição geográfica torna Campos Altos uma espécie de "cume hidrográfico", ou seja, um ponto elevado a partir do qual as águas da chuva tomam direções opostas. O relevo montanhoso e os contrafortes da Serra da Canastra e da Serra da Saudade, nas proximidades, contribuem para essa divisão natural. De um lado, os cursos d’água seguem rumo ao Sul, alimentando o Rio Araguari e posteriormente o Rio Grande, que cruza o Triângulo Mineiro e depois o estado de São Paulo, até se encontrar com o Rio Paraná. Este, por sua vez, integra a imensa bacia do Rio da Prata, cujas águas percorrem o território de vários países sul-americanos até desaguar no estuário do Prata, entre Buenos Aires e Montevidéu.

Do outro lado, os córregos e ribeirões de Campos Altos vertem para o Norte, contribuindo com os afluentes do alto curso do Rio São Francisco, conhecido como o rio da integração nacional. O Velho Chico nasce na Serra da Canastra e corta Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, sendo vital para o abastecimento de água, irrigação e produção de energia hidrelétrica em diversas regiões semiáridas do Brasil. Sua foz, no Oceano Atlântico, localiza-se entre os estados de Sergipe e Alagoas, marcando um destino oposto ao das águas que seguem para o Sul.

Essa posição de encontro e separação de bacias dá à cidade de Campos Altos um potencial estratégico não apenas geográfico, mas também ecológico e simbólico. Em um momento histórico de crescente preocupação com a mudança climática, a escassez hídrica e a governança das águas, estar situada sobre uma linha divisória de águas é algo que convida à reflexão sobre os rumos que damos aos nossos recursos naturais.

Continua após a publicidade

A cidade é testemunha silenciosa de um fenômeno natural que evidencia a interconexão dos biomas, dos rios e das comunidades humanas. Além disso, a consciência desse papel poderia fortalecer iniciativas de educação ambiental e de turismo ecológico na região, valorizando não apenas a importância dos rios, mas também a responsabilidade de quem vive entre eles. Com um patrimônio natural tão significativo, Campos Altos tem diante de si a oportunidade de se afirmar como guardiã de uma fronteira invisível, mas vital, que separa e conecta dois grandes sistemas hidrográficos da América do Sul.

Participe do nosso grupo de notícias no WhatsApp e receba em primeira mão tudo o que acontece em Campos Altos e na região. Clique aqui!
Participe do grupo do Portal No Foco no Whatsapp