Festa junina: um Natal brasileiro; leia a coluna do tabelião André de Paiva Toledo
Não por acaso, os dois momentos são separados por seis meses, como que dividindo o calendário ao meio. Só que o nascimento de João antecede o de Jesus, igual à história bíblica.
- Por: André de Paiva Toledo
- 27/06/2025 19:24
Há no Brasil uma celebração que, embora não se chame Natal, guarda com ele surpreendentes semelhanças. Trata-se do São João. Enquanto no 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus Cristo, no 24 de junho comemora-se a chegada ao mundo de João Batista. Ambos são eventos religiosos que têm por centro o nascimento de uma figura de profunda importância religiosa. Se o Natal é a festa cristã por excelência, a festa junina é, por tradição do povo brasileiro, o outro Natal.
Não por acaso, os dois momentos são separados por seis meses, como que dividindo o calendário ao meio. Só que o nascimento de João antecede o de Jesus, igual à história bíblica. Com efeito, em junho, João antecipa aos cristãos a chegada de Jesus, em dezembro.
Esse espelhamento simbólico se reflete também nas formas de celebração. No Natal, em pleno verão, os brasileiros recolhem-se ao lar, à mesa posta com a família e à convivência mais íntima. No meio dos enfeites de praxe, em que prevalecem o vermelho e o verde, destaca-se o presépio, onde está representado Jesus na manjedoura, acompanhado dos pais, Maria e José. É como se o nascimento de Jesus nos impulsionasse à comunhão introspectiva, à celebração privada da alegria de viver juntos, em uma única família.
Já a festa junina, celebrada no inverno brasileiro, convida à rua. Se no Natal nos abrigamos do calor, no São João buscamos o calor — sobretudo o humano. As fogueiras acesas nas praças, os fogos de artifício, as quadrilhas, os forrós, o milho cozido, a leitoa assada e o quentão não são apenas tradições populares, são pretextos para reunir gente, estreitar laços, acender sorrisos, acalentar o coração. É como se o nascimento de João nos impulsionasse à comunhão festiva, à celebração pública da alegria de viver juntos, em uma única comunidade.
Filho de Isabel e Zacarias, João cresceu no deserto e viveu em retiro, mas não para isolar-se do mundo. Sua missão era convocar as pessoas à conversão e à justiça, preparando-as para um futuro melhor. Ele não se fechou, ao contrário, bradou das margens do rio Jordão, batizou multidões e falou com vigor às autoridades. Seu chamado era coletivo, exigia resposta pública, comunhão, transformação. Por isso, sua festa é também um chamado à reunião, à convivência, ao calor humano.
Assim, se o Natal é a celebração da chegada de Jesus à humanidade em silêncio e humildade, o São João é a festa do grito que anuncia essa chegada. O primeiro é recato; o segundo, explosão. O primeiro é manjedoura; o segundo, fogueira. Ambos são celebrações de nascimentos que mudaram a história. À sua maneira, ambos continuam a tocar o coração dos brasileiros. Na realidade popular, há um outro Natal no Brasil: colorido, coletivo, ruidoso, mas igualmente sagrado. Um Natal em junho, no inverno, que celebra não apenas a vida de um homem, mas o calor que dele emana.
